Para H
Estava no meu quarto, deitado sobre a cama, ainda acordado, a pensar no teu aniversário, sem ideias para o que te oferecer. Levantei-me, abri a janela, olhei para o céu e tive uma ideia...
Olhei em volta, para me certificar de que ninguém estava a ver, estiquei o braço e colhi uma estrela para te dar. Um deus não gostou; ficou zangado e logo enviou uns anjos ao meu encontro para que a devolvesse. Vesti-me rapidamente, antes que eles chegassem, coloquei a estrela no bolso das calças e saí a correr, em direcção a tua casa. Mas eles vieram atrás de mim; eram velozes e perseguiram-me por onde quer que eu tentasse fugir. Virei uma esquina, saltei o muro da primeira casa dessa rua e abaixei-me. Ouvi-os passar logo depois e a afastarem-se e, quando senti que estavam longe, voltei para trás. Abri o portão da garagem e meti-me no carro para ir mais rápido, até porque já estava cansado de correr. Mas eles não desistiram. Mal olhei pelo retrovisor, consegui identificá-los no carro que vinha atrás de mim a toda a velocidade. Carreguei no acelerador…
Porque se enfureceu esse deus? Terá sido assim tão grande o prejuízo de ter tirado uma estrela do céu onde, de certeza, ninguém dará pela sua falta? Aposto que nem ele deu pela falta dela! Mas como soube ele, então, que eu a tinha tirado dali? Será que me viu, apesar do meu cuidado em certificar-me de que não estava ninguém a olhar? Não, não creio que me tivesse visto. Um deus não iria gastar o seu tempo a observar os actos de simples seres humanos, como eu. Deve ter sido algum invejoso que me viu a agarrar a estrela e lhe foi fazer queixa. Sim, foi isso, de certeza!
Um cruzamento, ali à frente; o semáforo acabou de mudar para amarelo. De certeza que ainda consigo passar antes de ficar vermelho, e eles, que vêm atrás de mim, terão de parar e esperar que volte a ficar verde, e então conseguirei escapar-lhes. Acelero e… já passei! Ainda vi o semáforo a ficar vermelho. Mas… olho novamente pelo espelho e vejo que os meus perseguidores também passaram. Passaram o vermelho! Não se detêm por nada!
O carro deles é melhor do que o meu; o condutor é bastante hábil e o mais provável é que acabem por me alcançar em breve. Se me apanharem vão levar a estrela de volta e, além disso, a julgar pelo ar furioso das caras deles, pressinto que estarei em maus lençóis. O que me leva a pensar: será melhor parar, devolver a estrela e pedir desculpa pelo que fiz? Talvez fosse uma forma sensata de resolver esta situação. Mas, por outro lado, não acho que o que fiz seja assim tão grave que justifique voltar atrás e pedir desculpa. Afinal, as estrelas não pertencem a ninguém; estão ali, no céu, suspensas, simplesmente. Além de que essa decisão significaria desistir desta oportunidade de te dar uma prenda tão… tão original…, a prenda mais original que alguma vez alguém te poderia dar. E, além disso, duvido que as coisas ficassem por aí e que eles se fossem embora pacificamente, mesmo depois de terem aquilo que vieram buscar. Porque (agora ocorre-me) talvez a fúria desse deus não se deva ao meu acto de ter tirado a estrela do céu. Talvez a estrela não seja assim tão importante. Talvez haja outra razão. É possível que ele te tenha já visto e não lhe tenha agradado a minha intenção de ta oferecer, e agora queira ajustar contas comigo. Será que um deus também pode sentir ciúmes? Mas isto já sou eu a devanear (que ridículo!)… Tenho que me concentrar na condução…
Contorno mais uma rotunda, a terceira, quando se acende uma luz que me informa que o combustível está a entrar na reserva. Pelo espelho retrovisor, posso ver os anjos, imparáveis, e cada vez mais furiosos, ainda no meu encalço. Isto não está a melhorar, e pode ficar mais complicado em breve…
O sol começa a nascer; é quase manhã. Já não vejo a Lua (aliás, não me lembro de ter visto a Lua toda a noite). As luzes dos lampiões começam a desligar-se. Viro a esquina que dá para o teu bairro e… acaba-se o combustível! Saio do carro a correr; não estou longe de tua casa. Entro na tua rua que, para minha sorte, está com trânsito condicionado, por causa das obras, com acesso permitido apenas a moradores, o que obriga os meus perseguidores a sair também do carro e a continuar atrás de mim a correr. Chego à tua porta, toco à campainha; sei que a esta hora estás em casa; ainda não é hora de teres saído para o trabalho. Estás a demorar. Toco outra vez. Bato à porta com urgência. Eles aproximam-se perigosamente. Tu não vens. Volto a bater… Finalmente vens abrir, ainda em pijama, e eu precipito-me para dentro (não sem provocar em ti um pequeno grito de surpresa) e fecho a porta atrás de mim. Sento-me no sofá a recuperar o fôlego, enquanto tu falas em voz alta (e eu quase nem te ouço), provavelmente a perguntar-me porque é que eu entrei assim em tua casa, àquela hora. Olho pela janela e vejo-os lá fora, parados, a discutir. Talvez a decidir a melhor forma de entrar em tua casa. Levanto-me, perante o teu ar perplexo, levo a mão ao bolso para tirar a estrela e digo “Parabéns!”… mas… agora reparo… uma, duas, três, quatro, cinco, seis, sete, oito, nove, dez, onze… onze estrelas no teu pé esquerdo! Onze estrelas em espiral e uma lua no meio! Ficamos os dois calados alguns segundos. Tu à espera do que eu vou dizer a seguir e na expectativa de ver o que eu estava a tirar do bolso; eu a hesitar em tirar a estrela do bolso e à espera que me ocorra algo para te dizer. A campainha toca: são eles. Digo imediatamente: “Espera, não abras! É para mim. Estão à minha espera.” Tu continuas à espera. No teu rosto, um misto de curiosidade e de impaciência. E eu, finalmente, decido-me: “…passei aqui só para te deixar isto. Parabéns!” Tiro do bolso a estrela. Tu ficas fascinada, arrancas-me a estrela da mão, dás-me um beijo na testa, daqueles que me deixam corado e todo arrepiado, e sentas-te numa cadeira, com a estrela nas mãos, a contemplá-la. Eu tento dizer alguma coisa: “desculpa, queria dar-te alguma coisa original, aliás, pensei que ia ser original… mas… afinal, agora reparei… parece que antes de mim já alguém se lembrou… o teu pé esquerdo…”
Mas tu já não me ouvias, tão deslumbrada estavas com a estrela que te dei… a tua nova estrela… mais uma… a décima segunda. Fiquei um pouco triste de não ter sido o primeiro a pensar nisso. Paciência! A campainha voltava a tocar: eram eles. Senti que não havia maneira de escapar ao que me esperava. Mas, pelo menos, a minha missão estava cumprida, embora com um desfecho que eu não previra. “Bem, eu vou andando. Depois dou notícias” disse eu ao aproximar-me da porta para sair, quando reparei numa fotografia em cima do móvel, num passepartout que te dei num aniversário anterior. Ao teu lado, nessa fotografia, estava alguém que reconheci imediatamente: um deus! Aquele! Fiquei mais triste ainda, talvez com ciúmes, e acho que até mesmo zangado… A campainha tocou outra vez. “Tenho mesmo de ir, adeus”. Tu continuaste alheada, sem me ouvir, entretida com a tua nova estrela. Eu abri a porta e saí. Era altura de ajustar contas…
Maio de 2008
sexta-feira, maio 22, 2009
terça-feira, maio 19, 2009
Naquele país as infracções à lei atingiram uma tal proporção que os tribunais deixaram de ter capacidade para dar saída aos processos que entravam cada vez em maior número e que se iam acumulando sem solução. Chegou-se ao ponto em que eram feitas sessões de julgamento colectivo de casos que nada tinham a ver uns com os outros e onde eram ditadas sentenças iguais para indivíduos que tinham cometido diferentes crimes. As actividades criminosas eram praticadas por gente de todas as classes sociais, desde o cidadão anónimo à mais proeminente das figuras públicas. Parecia que toda a população se dedicava a qualquer tipo de actividade ilegal, desde pequenos delitos à grande corrupção, todos tinham alguma mancha no seu registo criminal. Os próprios agentes e funcionários da lei e da justiça prendiam e julgavam num dia e eram presos e julgados no dia seguinte. Em pouco tempo as prisões ficaram sobrelotadas e parecia não haver maneira de arranjar solução para a multidão de condenados que aumentava de uma forma desmesurada a cada dia. Os governantes (que eram cada vez menos, uma vez que se sucediam também as suas detenções) perdiam horas e horas inúteis em reuniões donde não saíam senão resoluções ineficazes. Estavam, eles também, desorientados, cientes da sua incapacidade para lidar com a situação. Finalmente, o presidente, já em desespero, viu-se obrigado a tomar medidas extremas: ordenou a construção de grades sobre a linha da fronteira a toda a volta do país.
sexta-feira, maio 08, 2009
quinta-feira, maio 07, 2009
Filosofia barata (6)
Reformular a expressão “vive um dia de cada vez”: “vive meia hora de cada vez”.
sábado, abril 25, 2009
O louco ou a máscara
Duvidas que aquele homem seja realmente um louco. Aproxima-te dele e simula um gesto de agressão. Se tiver uma reacção defensiva, desmascaraste um fingidor.
Manual para bestas (1)
O homem de quem te queres vingar encontra-se naquela cidade. Não entres à sua procura. Cerca a cidade, envenena todos os rios que a atravessam, assalta todas as caravanas que a abastecem e liberta-as para seguirem o seu caminho quando todos os alimentos estiverem envenenados. Depois, espera pelo tempo seco e incendeia-a. Tens de ficar a observar à distância, de um local que permita ao teu olhar avistar todas as fronteiras da cidade, para te certificares de quem não escapa ninguém. Não podes falhar.
Uma revolução traz símbolos novos que substituem os anteriores mas que rapidamente são absorvidos por um sistema de mercado que os utiliza em seu proveito, até que já não sejam rentáveis. Chega então o momento de fazer uma outra revolução. As revoluções são boas para o mercado: refrescam-no, renovam-no, dão-lhe a dinâmica de que precisa para se manter vivo.
Para ela, um beijo tinha que conter uma significativa porção de ilusão (eu chamo-lhe “mentira”). Por isso, sentiu-se como que defraudada quando a beijei pela primeira vez; e nas vezes seguintes esse sentimento permaneceu. Nunca mo disse; eu adivinhei-o facilmente; já o tinha previsto, aliás. A sinceridade, por mais que esteja carregada de emoção, nunca pode ter êxito quando dirigida a alguém que persiste numa tentativa de alienação da realidade para entrar num mundo inexistente; um mundo encantado feito de sonhos e ilusões. Quanto a mim, continuo a preferir o mundo (e o amor) como ele é: desencantado, real, ambíguo, antinómico, assimétrico, inconstante, mas autêntico. Ou então, se calhar, como já alguém me tinha dito (ou acusado), sou eu que sou frio.
domingo, abril 19, 2009
sábado, março 28, 2009
sexta-feira, fevereiro 20, 2009
6 coisas sobre mim
Respondendo ao desafio da Teresa aqui ficam 6 coisas sobre mim:
1. Consigo concluir apenas cerca de um décimo (provavelmente até muito menos) dos projectos (musicais, literários...) que inicio. Acho que sinto maior fascínio no acto de analisar do que no acto de criar.
2. Raramente acerto no tamanho quando compro roupa.
3. A comunicação fracassa com bastante frequência, mesmo quando falo na mesma língua.
4. Tenho o hábito de desenvolver estranhas estatísticas mentais (distribuição de vogais e consoantes nas palavras de uma frase, número de letras por sílaba, número de sílabas por palavra; ...).
5. Acordo quase sempre antes de o despertador tocar.
6. Aprecio muito a utilização do absurdo, da incompatibilidade, da incoerência propositada na arte.
1. Consigo concluir apenas cerca de um décimo (provavelmente até muito menos) dos projectos (musicais, literários...) que inicio. Acho que sinto maior fascínio no acto de analisar do que no acto de criar.
2. Raramente acerto no tamanho quando compro roupa.
3. A comunicação fracassa com bastante frequência, mesmo quando falo na mesma língua.
4. Tenho o hábito de desenvolver estranhas estatísticas mentais (distribuição de vogais e consoantes nas palavras de uma frase, número de letras por sílaba, número de sílabas por palavra; ...).
5. Acordo quase sempre antes de o despertador tocar.
6. Aprecio muito a utilização do absurdo, da incompatibilidade, da incoerência propositada na arte.
sábado, fevereiro 14, 2009
Aproximámo-nos há anos atrás não pelo que somos agora, mas pelo que éramos na altura. Mudámos muito entretanto (mudámos tanto). Tornámo-nos pessoas diferentes. Tão diferentes que, nessa altura, nada do que sou hoje teria feito com que te aproximasses de mim e nada do que tu és hoje me teria feito aproximar de ti. Nada (ou quase nada) resta agora daquilo que nos atraiu um no outro. Aquilo que tu amavas, admiravas e ambicionavas em mim e aquilo que eu amava, admirava e ambicionava em ti. O tempo muda tudo, até as pessoas. O tempo trouxe-nos a mudança, mas mudou-nos de forma diferente, a mim e a ti. O tempo trouxe também a rotina e o hábito. E a rotina e o hábito tornaram possível que continuássemos juntos. Criou-se em cada um de nós uma espécie de tolerância à mudança individual que se foi realizando no outro e que, sem nos apercebermos, tornou-nos, aos poucos, incompatíveis.
Agora estamos um em frente do outro, parados, a tentar perceber o que é que nos impede de nos separarmos. A tentar perceber porque é que queremos manter uma ligação que já não faz sentido, porque é queremos persistir num jogo que foi dispensando a lógica, se tudo o que nos justificava desapareceu – não sobra qualquer rasto. O cansaço, a conformação, a necessidade afectiva e corporal, o medo do envelhecimento, da solidão, da doença?
Estamos parados, um em frente do outro, sem respostas. Sem resposta que nos esclareça porque é que já não perguntamos. E sabemos que vamos continuar a manter algo que julgamos já não carecer de justificação.
Agora estamos um em frente do outro, parados, a tentar perceber o que é que nos impede de nos separarmos. A tentar perceber porque é que queremos manter uma ligação que já não faz sentido, porque é queremos persistir num jogo que foi dispensando a lógica, se tudo o que nos justificava desapareceu – não sobra qualquer rasto. O cansaço, a conformação, a necessidade afectiva e corporal, o medo do envelhecimento, da solidão, da doença?
Estamos parados, um em frente do outro, sem respostas. Sem resposta que nos esclareça porque é que já não perguntamos. E sabemos que vamos continuar a manter algo que julgamos já não carecer de justificação.
sábado, fevereiro 07, 2009
quarta-feira, dezembro 31, 2008
O balanço
Tal como acontecia todos os anos, no final do ano os economistas foram convocados para fazer o balanço. Chegaram em automóveis de luxo, vestidos com fatos escuros, formaram grupos de trabalho, reuniram-se em horas extraordinárias, analisaram, discutiram e elaboraram relatórios com centenas, milhares de páginas que apresentavam as mesmas conclusões e as mesmas soluções dos anos anteriores – este ano que acabava tinha sido um ano de crise e era necessário garantir que a crise não se prolongasse para o ano seguinte e, como tal, dever-se-ia proceder a cortes nas despesas. O novo presidente optou por não agir como os anteriores e tomou uma decisão diferente. Ordenou: – Despeçam os economistas!
sábado, dezembro 13, 2008
terça-feira, novembro 11, 2008
domingo, novembro 09, 2008
quarta-feira, novembro 05, 2008
“Não te conformes com aquilo que não queres”
Um conselho bem intencionado, mas que não serve a ninguém. Não se aplica àqueles que podem escolher; não pode ser adoptado por aqueles que não têm outra escolha.
domingo, novembro 02, 2008
Conveniências
Causas colectivas que se transformam em causas pessoais.
Transformar causas pessoais em causas colectivas.
Transformar causas pessoais em causas colectivas.
quarta-feira, outubro 29, 2008
segunda-feira, outubro 20, 2008
domingo, outubro 05, 2008
A espera
R entrou e percorreu atentamente o interior com o olhar. Apenas duas mesas ocupadas. Numa, um velhote a ler o jornal, noutra, dois velhotes em silêncio, com os olhares fixados na televisão desligada. Não está aqui. No relógio, ao cimo da parede atrás do balcão, ainda faltavam 7 minutos. Voltou para fora, sentou-se a uma das mesas da esplanada, à sombra do guarda-sol. Veio o empregado:
– Boa tarde.
– Água com gás, por favor.
A tarde estava quente, bastante quente, quase sufocante. R demorou um pouco a acalmar. Estava ainda tenso, pois ficara retido no trânsito quando vinha a caminho, o que era inesperado àquela hora, naquela altura do ano (Agosto é sempre o mês em que a cidade se encontra quase vazia, pois uma grande parte do seus habitantes parte em férias e, devido ao facto de não haver aqui nada de significativo que possa funcionar como atracção turística, são poucos os visitantes nessa altura), e chegou a recear chegar atrasado. E o pior que lhe podia acontecer era chegar atrasado a este encontro, tal a importância que lhe atribuía. Por esse motivo, mal conseguiu sair daquela fila de trânsito em circulação lenta, acelerou um pouco mais do que era habitual em si, de forma a garantir a sua pontualidade. Felizmente, R tinha por hábito sair cedo de casa quando tinha algum compromisso, sempre bastante mais cedo do que precisava, o que fazia com que chegasse sempre antes da hora marcada. Não fora ter saído com a antecedência habitual e o imprevisto teria feito certamente com que chegasse atrasado. Olhou para o relógio: 4 minutos para a hora marcada.
A água já viera. R entornou no copo cerca de metade do conteúdo da garrafa e bebeu-o dum só gole. Entornou o resto e recostou-se. Ansiava já há algum tempo por este encontro. O fio de suor que deslizava pela sua testa até ficar retido na sobrancelha devia-se menos ao calor do que a essa ansiedade que não desaparecia, antes parecia aumentar. E o facto de ter chegado mais cedo não ajudava; uma espera torna-se sempre mais penosa quanto mais tempo dura, principalmente se não se tem nada para fazer entretanto. Precisava de arranjar alguma coisa para ajudar a passar aqueles poucos, mas tortuosos, minutos que faltavam para a hora marcada. Olhou para as outras mesas à procura de um jornal. Além de ajudar a passar o tempo, a leitura poderia ajudar R a acalmar e até a dar-lhe um ar de maior naturalidade no momento em que M chegasse. Mas o jornal estava a ser lido na única mesa que estava ocupada para além da sua.
Em volta, tudo estava tranquilo. Um início de tarde quase sem movimento em que o calor dilata os segundos num tempo quase suspenso e o rumor ambiente parece prolongar-se continuamente num bordão inaudível. Finalmente, e quase sem dar por isso, R acabou por ser embalado por essa serenidade que o rodeava. Bebeu mais um pouco de água. Estava agora mais calmo.
Apesar de o ar condicionado tornar o ambiente mais confortável no interior do que no exterior, onde estava um calor dificilmente suportável, R optara por ficar no exterior, prevendo que M poderia chegar e sentar-se logo na esplanada, sem ir lá dentro verificar se R estaria lá, evitando assim o incómodo de um deles ter de sair do sítio onde se tinha sentado para ir ter com o outro. Mas começa agora a questionar-se (algo em que não pensara no momento em que se sentou) se M, quando chegasse, não ficaria desagradada com essa escolha, devido ao calor intenso que estava aí fora, mesmo estando debaixo da sombra do guarda-sol.
Abstraído nessa preocupação, R quase nem se deu conta de que o movimento de clientes aumentara, tanto no interior como no exterior e que, em poucos minutos, quase todas as mesas da esplanada estavam ocupadas. Alguém de um grupo de pessoas que chegava naquele momento e se instalava na mesa ao lado pergunta-lhe se pode retirar a outra cadeira, ainda vazia, que estava na sua mesa. R responde que não, que está a reservar a cadeira para uma pessoa que estava prestes a chegar. E, logo de seguida, olha novamente para o relógio. Já passavam 2 minutos. Olha então para o relógio da torre da igreja mesmo em frente, do outro lado da rua, e confirma a hora. Está certa. M estava ligeiramente atrasada. Contudo, não devia demorar. Talvez tivesse ficado retida no trânsito no mesmo local onde R ficara há minutos atrás, ou então, um simples atraso que não carece de qualquer explicação, como é normal acontecer a quase toda a gente em alguma ocasião.
R tira o telemóvel do bolso das calças. Verifica que não há mensagens nem registo de qualquer chamada. Pousa então o telemóvel em cima da mesa. O tempo vai passando naquele calor e a espera começa a ficar maçadora. A ansiedade volta a crescer. R ora cruza os braços, ora os apoia sobre os braços da cadeira, ora pousa os cotovelos sobre a mesa, mas não consegue encontrar uma posição que não se torne incómoda logo passado alguns segundos. E as mãos… o que fazer com as mãos? Nestas alturas uma pessoa nunca sabe como há-de estar com as mãos. As mãos são sempre o que denuncia um estado de ansiedade e nervosismo. Olha para o cinzeiro em cima da mesa e pensa que se fumasse poderia puxar de um cigarro e, pelo menos, teria as mãos ocupadas por alguns momentos. Encontrava aí uma utilidade para um vício estúpido… O jornal… procura novamente o jornal, mas estava pousado na mesa das pessoas que lhe haviam pedido a cadeira e, apesar de não estar a ser utilizado, preferiu não o pedir, pois já sentira que as pessoas o tinham olhado várias vezes, reparando que a pessoa que ele dissera que estava prestes a chegar, 15 minutos depois ainda não aparecera, provavelmente desconfiadas de que R não deixou levar a cadeira por pura antipatia. Começava a ter a sensação de que a temperatura estava a aumentar. Ou seria a sua inquietação que crescia? Não encontrava nada que o ajudasse a acalmar e se M chegasse neste momento iria de certeza reparar no seu nervosismo. Quando M chegasse? Mas agora ocorre-lhe: e se M tivesse já chegado e estivesse no interior? Podia ter acontecido que M tivesse chegado ainda mais cedo do que R e se tivesse sentado no interior, e tivesse ido apenas à casa de banho no momento em que R chegou e foi ao interior verificar se M lá estaria, voltando para a mesa quando R já estava sentado na esplanada. Nesse caso M estaria lá dentro à espera também, provavelmente no mesmo estado de impaciência em que R se encontrava naquele momento.
De fora, o vidro não permitia visibilidade para o interior, mas de dentro via-se para a esplanada, a menos que M estivesse sentada na parte do interior em que o balcão não permite visibilidade para a parte do exterior em que R se encontrava. Ou então, como R estava virado para a rua, de costas para o interior, poderia acontecer que estivesse dentro do campo de visão M, mas sem que esta o reconhecesse. Prevendo essa hipótese, R vai voltando o rosto para trás de vez em quando, havendo assim uma possibilidade de, num desses momentos, M reparar que R está no exterior. Até que, não suportando mais essa incerteza, R levanta-se e dirige-se à casa de banho, como pretexto para olhar o interior e confirmar que M não estava lá.
Regressa e senta-se na mesma cadeira, mais descontraído. Pega no telemóvel com intenção de telefonar, mas logo se detém, pensando que isso iria denunciar a ansiedade que ele não queria deixar transparecer a M. Decide esperar mais um pouco. Afinal, ainda não passara assim tanto tempo. Já esperara bem mais, no passado, por outras pessoas, noutros encontros. Mas subitamente surge-lhe o pensamento de que M poderia ter chegado no espaço de tempo em que ele foi lá dentro e que, não o vendo em lado nenhum, e tendo em conta o tempo que já passara desde a hora marcada – 22 minutos – tivesse pensado que ele se fartara de esperar e tivesse ido embora, ou até que não aparecera, tendo então ela própria decidido ir embora de imediato. R agarra novamente o telemóvel, disposto a desfazer o possível mal-entendido, mas novamente hesita, receando ser inconveniente, pois não quer que M pense que ele está de qualquer forma a pressioná-la. Afinal, um atraso é uma coisa que pode acontecer a qualquer pessoa, e 28 minutos é um tempo de espera ainda dentro dos limites do aceitável. Além disso, como era a primeira vez que tinha um encontro com M, não sabia se ela era habitualmente pontual ou se costumava atrasar-se e, se fosse este o caso, se era habitual atrasar-se muito ou pouco tempo. Bebe o resto da água e decide esperar mais algum tempo.
A espera vai-se prolongando e R não consegue evitar olhar para o relógio com uma frequência cada vez maior. Começa então a pensar na possibilidade de M já não vir ao seu encontro e nas suas possíveis razões: podia ser que tivesse feito confusão com a hora marcada; ou algum imprevisto, algum problema de última hora que tenha a impedido de vir ao encontro que combinara com R, sem ter tido oportunidade de avisar; talvez se tivesse esquecido, talvez aquele encontro não fosse tão importante para si como era para R; podia ser também que não comparecesse por simplesmente não querer; talvez algum acontecimento anterior, ou algo que R tenha dito não lhe tenha agradado e tenha feito com que M não quisesse afinal vir ao seu encontro...
À medida que se vai perdendo com tudo isto na mente, um misto de impaciência e apreensão apodera-se de si. Leva o copo à boca esquecendo-se de que já não tinha água. Não consegue ficar parado durante 3 segundos numa mesma posição. Olha incessantemente para o relógio. Tem a impressão que há pessoas em volta que já estão a reparar há algum tempo no estado de agitação que começa a ter dificuldades para disfarçar. R atingiu o seu limite de tolerância e, agora, 40 minutos após a hora marcada, decide-se finalmente a telefonar. Agarra o telemóvel, procura o número de M na lista de contactos e pressiona o botão de chamada. Espera enquanto o toque soa várias vezes. O toque cessa. No visor do telemóvel aparece “não atende”. Logo de seguida repete a chamada. M não atende. R tenta novamente várias vezes, mas sempre em vão, sempre a mesma mensagem no visor: “não atente”. Será que M não ouviu o telemóvel? Será que não pode atender? Será que não atende por entender que o seu atraso não é assim tão grande que justifique que R esteja já a tentar telefonar-lhe? Será que não atende por achar que R já devia ter telefonado antes, preocupado em saber se teria acontecido algo grave, vendo aí uma atitude de desconsideração da sua parte? R queda-se por tempo indeterminado, com o pensamento vazio, sem saber o que fazer… esperar mais algum tempo, mesmo que em vão? E até quando? Ir embora, mesmo que M possa ainda vir?
– Olá! Cheguei, finalmente. Desculpa o atraso. Obrigado por teres esperado. – R olha imediatamente ao ouvir uma voz, sem sequer notar que essa voz era completamente diferente da voz de M, tal era o seu estado de ansiedade naquele momento. Pelo menos, bastante diferente daquilo que a sua memória conservava como a voz de M, pois há muito tempo que a não ouvia e, ainda por cima, todas as vezes que falaram foi por telefone; e sabe-se que a voz ao telefone adquire sempre características tímbricas diferentes. E mesmo se fosse M que chegasse, R não teria maneira de saber se era realmente ela, pois nunca a vira antes. A confusão apodera-se de tal maneira de si, que R começa até a duvidar se alguma vez marcou este encontro com M, ou se apenas ficou com essa sensação. Aliás, já não tem a certeza de alguma vez ter falado realmente com M ou se apenas o imaginou, pois já não se recorda exactamente quando nem em que circunstâncias. E, nesse caso, não teria maneira de saber se a voz daquela pessoa que acabara de chegar era igual, parecida ou completamente diferente da voz de M.
É então que R tira uma nota da carteira e deixa-a sobre a mesa, presa por baixo do copo, para evitar que seja levada pelo vento que se começa a fazer sentir. Não espera pelo troco. Levanta-se, veste o sobretudo, coloca o gorro na cabeça e caminha por entre as árvores despidas, calcando o tapete de folhas caídas; através do fumo dos assadores de castanhas, com as folhas de jornais que voam baixo e lhe batem nas pernas; baixa a cabeça para proteger o rosto das frias gotas de chuva que vão caindo com cada vez mais intensidade e acelera o passo, tentando desviar-se das poças de água. Já afastado, tem a impressão momentânea de ter ouvido chamar o seu nome longinquamente. Mas não se volta e segue em direcção a um Inverno que prevê longo e rigoroso…
– Boa tarde.
– Água com gás, por favor.
A tarde estava quente, bastante quente, quase sufocante. R demorou um pouco a acalmar. Estava ainda tenso, pois ficara retido no trânsito quando vinha a caminho, o que era inesperado àquela hora, naquela altura do ano (Agosto é sempre o mês em que a cidade se encontra quase vazia, pois uma grande parte do seus habitantes parte em férias e, devido ao facto de não haver aqui nada de significativo que possa funcionar como atracção turística, são poucos os visitantes nessa altura), e chegou a recear chegar atrasado. E o pior que lhe podia acontecer era chegar atrasado a este encontro, tal a importância que lhe atribuía. Por esse motivo, mal conseguiu sair daquela fila de trânsito em circulação lenta, acelerou um pouco mais do que era habitual em si, de forma a garantir a sua pontualidade. Felizmente, R tinha por hábito sair cedo de casa quando tinha algum compromisso, sempre bastante mais cedo do que precisava, o que fazia com que chegasse sempre antes da hora marcada. Não fora ter saído com a antecedência habitual e o imprevisto teria feito certamente com que chegasse atrasado. Olhou para o relógio: 4 minutos para a hora marcada.
A água já viera. R entornou no copo cerca de metade do conteúdo da garrafa e bebeu-o dum só gole. Entornou o resto e recostou-se. Ansiava já há algum tempo por este encontro. O fio de suor que deslizava pela sua testa até ficar retido na sobrancelha devia-se menos ao calor do que a essa ansiedade que não desaparecia, antes parecia aumentar. E o facto de ter chegado mais cedo não ajudava; uma espera torna-se sempre mais penosa quanto mais tempo dura, principalmente se não se tem nada para fazer entretanto. Precisava de arranjar alguma coisa para ajudar a passar aqueles poucos, mas tortuosos, minutos que faltavam para a hora marcada. Olhou para as outras mesas à procura de um jornal. Além de ajudar a passar o tempo, a leitura poderia ajudar R a acalmar e até a dar-lhe um ar de maior naturalidade no momento em que M chegasse. Mas o jornal estava a ser lido na única mesa que estava ocupada para além da sua.
Em volta, tudo estava tranquilo. Um início de tarde quase sem movimento em que o calor dilata os segundos num tempo quase suspenso e o rumor ambiente parece prolongar-se continuamente num bordão inaudível. Finalmente, e quase sem dar por isso, R acabou por ser embalado por essa serenidade que o rodeava. Bebeu mais um pouco de água. Estava agora mais calmo.
Apesar de o ar condicionado tornar o ambiente mais confortável no interior do que no exterior, onde estava um calor dificilmente suportável, R optara por ficar no exterior, prevendo que M poderia chegar e sentar-se logo na esplanada, sem ir lá dentro verificar se R estaria lá, evitando assim o incómodo de um deles ter de sair do sítio onde se tinha sentado para ir ter com o outro. Mas começa agora a questionar-se (algo em que não pensara no momento em que se sentou) se M, quando chegasse, não ficaria desagradada com essa escolha, devido ao calor intenso que estava aí fora, mesmo estando debaixo da sombra do guarda-sol.
Abstraído nessa preocupação, R quase nem se deu conta de que o movimento de clientes aumentara, tanto no interior como no exterior e que, em poucos minutos, quase todas as mesas da esplanada estavam ocupadas. Alguém de um grupo de pessoas que chegava naquele momento e se instalava na mesa ao lado pergunta-lhe se pode retirar a outra cadeira, ainda vazia, que estava na sua mesa. R responde que não, que está a reservar a cadeira para uma pessoa que estava prestes a chegar. E, logo de seguida, olha novamente para o relógio. Já passavam 2 minutos. Olha então para o relógio da torre da igreja mesmo em frente, do outro lado da rua, e confirma a hora. Está certa. M estava ligeiramente atrasada. Contudo, não devia demorar. Talvez tivesse ficado retida no trânsito no mesmo local onde R ficara há minutos atrás, ou então, um simples atraso que não carece de qualquer explicação, como é normal acontecer a quase toda a gente em alguma ocasião.
R tira o telemóvel do bolso das calças. Verifica que não há mensagens nem registo de qualquer chamada. Pousa então o telemóvel em cima da mesa. O tempo vai passando naquele calor e a espera começa a ficar maçadora. A ansiedade volta a crescer. R ora cruza os braços, ora os apoia sobre os braços da cadeira, ora pousa os cotovelos sobre a mesa, mas não consegue encontrar uma posição que não se torne incómoda logo passado alguns segundos. E as mãos… o que fazer com as mãos? Nestas alturas uma pessoa nunca sabe como há-de estar com as mãos. As mãos são sempre o que denuncia um estado de ansiedade e nervosismo. Olha para o cinzeiro em cima da mesa e pensa que se fumasse poderia puxar de um cigarro e, pelo menos, teria as mãos ocupadas por alguns momentos. Encontrava aí uma utilidade para um vício estúpido… O jornal… procura novamente o jornal, mas estava pousado na mesa das pessoas que lhe haviam pedido a cadeira e, apesar de não estar a ser utilizado, preferiu não o pedir, pois já sentira que as pessoas o tinham olhado várias vezes, reparando que a pessoa que ele dissera que estava prestes a chegar, 15 minutos depois ainda não aparecera, provavelmente desconfiadas de que R não deixou levar a cadeira por pura antipatia. Começava a ter a sensação de que a temperatura estava a aumentar. Ou seria a sua inquietação que crescia? Não encontrava nada que o ajudasse a acalmar e se M chegasse neste momento iria de certeza reparar no seu nervosismo. Quando M chegasse? Mas agora ocorre-lhe: e se M tivesse já chegado e estivesse no interior? Podia ter acontecido que M tivesse chegado ainda mais cedo do que R e se tivesse sentado no interior, e tivesse ido apenas à casa de banho no momento em que R chegou e foi ao interior verificar se M lá estaria, voltando para a mesa quando R já estava sentado na esplanada. Nesse caso M estaria lá dentro à espera também, provavelmente no mesmo estado de impaciência em que R se encontrava naquele momento.
De fora, o vidro não permitia visibilidade para o interior, mas de dentro via-se para a esplanada, a menos que M estivesse sentada na parte do interior em que o balcão não permite visibilidade para a parte do exterior em que R se encontrava. Ou então, como R estava virado para a rua, de costas para o interior, poderia acontecer que estivesse dentro do campo de visão M, mas sem que esta o reconhecesse. Prevendo essa hipótese, R vai voltando o rosto para trás de vez em quando, havendo assim uma possibilidade de, num desses momentos, M reparar que R está no exterior. Até que, não suportando mais essa incerteza, R levanta-se e dirige-se à casa de banho, como pretexto para olhar o interior e confirmar que M não estava lá.
Regressa e senta-se na mesma cadeira, mais descontraído. Pega no telemóvel com intenção de telefonar, mas logo se detém, pensando que isso iria denunciar a ansiedade que ele não queria deixar transparecer a M. Decide esperar mais um pouco. Afinal, ainda não passara assim tanto tempo. Já esperara bem mais, no passado, por outras pessoas, noutros encontros. Mas subitamente surge-lhe o pensamento de que M poderia ter chegado no espaço de tempo em que ele foi lá dentro e que, não o vendo em lado nenhum, e tendo em conta o tempo que já passara desde a hora marcada – 22 minutos – tivesse pensado que ele se fartara de esperar e tivesse ido embora, ou até que não aparecera, tendo então ela própria decidido ir embora de imediato. R agarra novamente o telemóvel, disposto a desfazer o possível mal-entendido, mas novamente hesita, receando ser inconveniente, pois não quer que M pense que ele está de qualquer forma a pressioná-la. Afinal, um atraso é uma coisa que pode acontecer a qualquer pessoa, e 28 minutos é um tempo de espera ainda dentro dos limites do aceitável. Além disso, como era a primeira vez que tinha um encontro com M, não sabia se ela era habitualmente pontual ou se costumava atrasar-se e, se fosse este o caso, se era habitual atrasar-se muito ou pouco tempo. Bebe o resto da água e decide esperar mais algum tempo.
A espera vai-se prolongando e R não consegue evitar olhar para o relógio com uma frequência cada vez maior. Começa então a pensar na possibilidade de M já não vir ao seu encontro e nas suas possíveis razões: podia ser que tivesse feito confusão com a hora marcada; ou algum imprevisto, algum problema de última hora que tenha a impedido de vir ao encontro que combinara com R, sem ter tido oportunidade de avisar; talvez se tivesse esquecido, talvez aquele encontro não fosse tão importante para si como era para R; podia ser também que não comparecesse por simplesmente não querer; talvez algum acontecimento anterior, ou algo que R tenha dito não lhe tenha agradado e tenha feito com que M não quisesse afinal vir ao seu encontro...
À medida que se vai perdendo com tudo isto na mente, um misto de impaciência e apreensão apodera-se de si. Leva o copo à boca esquecendo-se de que já não tinha água. Não consegue ficar parado durante 3 segundos numa mesma posição. Olha incessantemente para o relógio. Tem a impressão que há pessoas em volta que já estão a reparar há algum tempo no estado de agitação que começa a ter dificuldades para disfarçar. R atingiu o seu limite de tolerância e, agora, 40 minutos após a hora marcada, decide-se finalmente a telefonar. Agarra o telemóvel, procura o número de M na lista de contactos e pressiona o botão de chamada. Espera enquanto o toque soa várias vezes. O toque cessa. No visor do telemóvel aparece “não atende”. Logo de seguida repete a chamada. M não atende. R tenta novamente várias vezes, mas sempre em vão, sempre a mesma mensagem no visor: “não atente”. Será que M não ouviu o telemóvel? Será que não pode atender? Será que não atende por entender que o seu atraso não é assim tão grande que justifique que R esteja já a tentar telefonar-lhe? Será que não atende por achar que R já devia ter telefonado antes, preocupado em saber se teria acontecido algo grave, vendo aí uma atitude de desconsideração da sua parte? R queda-se por tempo indeterminado, com o pensamento vazio, sem saber o que fazer… esperar mais algum tempo, mesmo que em vão? E até quando? Ir embora, mesmo que M possa ainda vir?
– Olá! Cheguei, finalmente. Desculpa o atraso. Obrigado por teres esperado. – R olha imediatamente ao ouvir uma voz, sem sequer notar que essa voz era completamente diferente da voz de M, tal era o seu estado de ansiedade naquele momento. Pelo menos, bastante diferente daquilo que a sua memória conservava como a voz de M, pois há muito tempo que a não ouvia e, ainda por cima, todas as vezes que falaram foi por telefone; e sabe-se que a voz ao telefone adquire sempre características tímbricas diferentes. E mesmo se fosse M que chegasse, R não teria maneira de saber se era realmente ela, pois nunca a vira antes. A confusão apodera-se de tal maneira de si, que R começa até a duvidar se alguma vez marcou este encontro com M, ou se apenas ficou com essa sensação. Aliás, já não tem a certeza de alguma vez ter falado realmente com M ou se apenas o imaginou, pois já não se recorda exactamente quando nem em que circunstâncias. E, nesse caso, não teria maneira de saber se a voz daquela pessoa que acabara de chegar era igual, parecida ou completamente diferente da voz de M.
É então que R tira uma nota da carteira e deixa-a sobre a mesa, presa por baixo do copo, para evitar que seja levada pelo vento que se começa a fazer sentir. Não espera pelo troco. Levanta-se, veste o sobretudo, coloca o gorro na cabeça e caminha por entre as árvores despidas, calcando o tapete de folhas caídas; através do fumo dos assadores de castanhas, com as folhas de jornais que voam baixo e lhe batem nas pernas; baixa a cabeça para proteger o rosto das frias gotas de chuva que vão caindo com cada vez mais intensidade e acelera o passo, tentando desviar-se das poças de água. Já afastado, tem a impressão momentânea de ter ouvido chamar o seu nome longinquamente. Mas não se volta e segue em direcção a um Inverno que prevê longo e rigoroso…
sexta-feira, setembro 12, 2008
Something to believe in
Well the mirror tells a different story
Than the one that’s playing in my mind
Every time I swear I’m looking younger
The more lines that I find
I guess I learned to trade youth for wisdom
And lust in for romance
It’s all written in the stages and phases
Of life’s little dance
But when I want to bitch about growing old
I think how many never had a chance…
"Something to believe in (#2)"
Poison
Than the one that’s playing in my mind
Every time I swear I’m looking younger
The more lines that I find
I guess I learned to trade youth for wisdom
And lust in for romance
It’s all written in the stages and phases
Of life’s little dance
But when I want to bitch about growing old
I think how many never had a chance…
"Something to believe in (#2)"
Poison
terça-feira, julho 29, 2008
Desprezo e orgulho
Para A
(com orgulho)
Desprezo e orgulho são duas coisas que, quando se encontram, dão mau resultado; seja qual for a origem de ambos (necessidade de afirmação, necessidade de fortalecer a autoconfiança, defesa, carência, mera estupidez…).
Nada mais normal do que desprezar alguém de quem nunca gostámos, alguém que nos repugna, quer existam ou não razões para esse sentimento; em relação a isto, nada a dizer.
Mas há muito a dizer quando se despreza alguém que se estima (ou se diz que se estima). Isso pode acontecer, por exemplo, porque se sabe à partida (ou, pelo menos, se julga, pensando que se conhece a outra pessoa suficientemente bem), que essa pessoa é suficientemente paciente para tolerar o desprezo que lhe é dirigido, pois prefere evitar o conflito e tentar manter a relação saudável. Torna-se então quase um vício incontrolável, um comportamento irrefreável, lançar um olhar, uma palavra, uma sílaba de troça e de desprezo para cada gesto, para cada palavra, para cada acção dessa pessoa; antes de se pensar, já se lhe está a dirigir uma atitude de desprezo, quer o acto dessa pessoa o justifique ou não (isso não importa). Até que, chegando a um certo limite de tolerância, o desprezo leva uma resposta desagradavelmente imprevista (e que, geralmente, só peca por tardia). E, por muito que se reconheça e se tente remediar o erro, agora será o orgulho da outra pessoa que impedirá a reconciliação e a manutenção de uma relação saudável; orgulho (mais do que justo) gerado por uma ferida e que prefere manter aberta essa ferida, ainda que sofra com isso, do que curá-la e abdicar de si próprio.
(com orgulho)
Desprezo e orgulho são duas coisas que, quando se encontram, dão mau resultado; seja qual for a origem de ambos (necessidade de afirmação, necessidade de fortalecer a autoconfiança, defesa, carência, mera estupidez…).
Nada mais normal do que desprezar alguém de quem nunca gostámos, alguém que nos repugna, quer existam ou não razões para esse sentimento; em relação a isto, nada a dizer.
Mas há muito a dizer quando se despreza alguém que se estima (ou se diz que se estima). Isso pode acontecer, por exemplo, porque se sabe à partida (ou, pelo menos, se julga, pensando que se conhece a outra pessoa suficientemente bem), que essa pessoa é suficientemente paciente para tolerar o desprezo que lhe é dirigido, pois prefere evitar o conflito e tentar manter a relação saudável. Torna-se então quase um vício incontrolável, um comportamento irrefreável, lançar um olhar, uma palavra, uma sílaba de troça e de desprezo para cada gesto, para cada palavra, para cada acção dessa pessoa; antes de se pensar, já se lhe está a dirigir uma atitude de desprezo, quer o acto dessa pessoa o justifique ou não (isso não importa). Até que, chegando a um certo limite de tolerância, o desprezo leva uma resposta desagradavelmente imprevista (e que, geralmente, só peca por tardia). E, por muito que se reconheça e se tente remediar o erro, agora será o orgulho da outra pessoa que impedirá a reconciliação e a manutenção de uma relação saudável; orgulho (mais do que justo) gerado por uma ferida e que prefere manter aberta essa ferida, ainda que sofra com isso, do que curá-la e abdicar de si próprio.
sábado, junho 28, 2008
Isto é Verão...
Fazer nudismo na praia e ter pedacinhos de papel higiénico agarrados aos pêlos do cu.
quinta-feira, junho 26, 2008
Para H
Uma vez uma bruxa ensinou-me uma fórmula para transformar tijolo em ouro e uma reza para não envelhecer. E disse-me: “cuidado com o que desejas, pois pode concretizar-se”. Não arrisquei (como, de resto, procedo quase sempre). Nunca saberei como seria se o tivesse feito. Não me arrependo nem deixo de estar arrependido. O saber tem sempre, pelo menos, duas faces. A satisfação de uma curiosidade traz sempre anexada uma tragédia cuja dimensão desconhecemos. Uma revelação não se circunscreve a um momento. As suas consequências estendem-se para além desse momento inicial sem que possamos prevê-las antes que seja tarde demais para reverter o seu curso.
Uma vez uma bruxa ensinou-me uma fórmula para transformar tijolo em ouro e uma reza para não envelhecer. E disse-me: “cuidado com o que desejas, pois pode concretizar-se”. Não arrisquei (como, de resto, procedo quase sempre). Nunca saberei como seria se o tivesse feito. Não me arrependo nem deixo de estar arrependido. O saber tem sempre, pelo menos, duas faces. A satisfação de uma curiosidade traz sempre anexada uma tragédia cuja dimensão desconhecemos. Uma revelação não se circunscreve a um momento. As suas consequências estendem-se para além desse momento inicial sem que possamos prevê-las antes que seja tarde demais para reverter o seu curso.
sexta-feira, maio 30, 2008
sexta-feira, maio 23, 2008
sexta-feira, maio 09, 2008
sexta-feira, maio 02, 2008
sábado, abril 12, 2008
Factos e argumentos
Quando os factos não são a favor, usam-se argumentos. E não raras vezes estes vencem aqueles.
sábado, março 01, 2008
A hegemonia absoluta da Imagem conduziu, em linha recta, ao ódio estigmatizado a toda a inteligência discursiva. Odeia-se a História como se odeia a Literatura; a Matemática como as Ciências e as Artes. Em suma, odeia-se qualquer acto intelectual que exija reflexão… Na Escola de hoje, qualquer processo didáctico que se preze não pode dispensar a Imagem, os meios visuais… os esquemas e os gráficos, o mais visuais possível. Discorrer, pôr a inteligência a funcionar, na leitura ou na audição, sobre um texto ou um discurso relativamente longos, já não são mais do que o eco de uma voz que clama no deserto!... Os jovens falam por slogans, motes, frases-chave (que são feitas por outrem); perdeu-se a capacidade de articulação discursiva original, a inteligência e o espírito crítico…
"Linguagem/Poesia/Música", Manuel Reis
"Linguagem/Poesia/Música", Manuel Reis
domingo, fevereiro 24, 2008
… a eterna desmistificação e demolição de todo o Poder estabelecido!... Para que as democracias representativas, colocadas no Poder por sufrágio maioritário dito universal, não continuem a ser, afinal, a maneira sofisticada e politicamente admissível de governar em ditadura!
"Linguagem/Poesia/Música", Manuel Reis
"Linguagem/Poesia/Música", Manuel Reis
domingo, janeiro 20, 2008
quinta-feira, janeiro 17, 2008
Rumo ao Sul – Primeira página de um romance abortado
Sábado, 12 de Junho de 1999
...o comboio partiu em direcção ao Sul e mergulhou no nevoeiro que enche a manhã – denso, quase impenetrável. Rompe os ventos e avança por entre paisagens de séculos – intactas, permanentes, esquecidas... F. não veio para a despedida...
No interior da carruagem prevalece o silêncio entre desconhecidos, lado a lado, violado apenas pelo som tumultuoso do movimento do comboio, que enche o vácuo entre nós... e os nossos ouvidos indiferentes. Respira-se um cruzamento dos odores de histórias passadas, guardadas em sigilo, e dos destinos recônditos, aguardados passivamente por cada um de nós. Em cada estação repetem-se os rituais: a tristeza de uma despedida, a alegria de um reencontro, uma partida em direcção à incerteza ou um regresso a casa há muito desejado. E depois, novamente, o silêncio. Silêncio carregado de saudade e de ansiedade... ou de indiferença.
Lá fora os raios de Sol quebram lentamente os céus e trespassam o nevoeiro agora débil, invadindo todo o espaço envolvente como uma teia de luz, de sublime textura branca, opaca e ofuscante. A poderosa máquina metálica continua imponente por entre estas terras sem dono… sem nome. Do solo virgem erguem-se, sólidas, as montanhas, habitadas por deuses antigos que descansam agora em segredo. Deuses hoje esquecidos, outrora elevados à magnificência pela excêntrica demência dos feiticeiros extintos. Revelam-se agora apenas no olhar inerte dos seus descendentes, que desconhecem em si o rasto da sua presença e os apagaram da sua memória. E esta janela, esta simples janela, é a barreira intransponível que me separa de todo esse esplendor. Impede-me de sentir, de ser parte desse mundo primordial, puro, absoluto, que apenas posso observar com estes meus olhos vazios, desprovidos do seu frémito original.
Olhos cansados, cedem por alguns instantes ao efémero sonho de nada que me corta a vigília... leva-me agora para além desta janela, numa flutuação confusa por entre imagens pouco nítidas, sem sentido. Onde estou?... Volto a acordar e olho mais uma vez pela janela. O comboio começa a parar. A estação final. Os últimos passageiros tomam os seus haveres e preparam-se para sair. Levanto-me.
Para onde vou, neste lugar desconhecido? O futuro recusa-se a desvendar os seus segredos neste último dia do meu passado. E recordo... recordo ainda o silêncio, as paisagens, o sonho... F. não veio para a despedida.
...o comboio partiu em direcção ao Sul e mergulhou no nevoeiro que enche a manhã – denso, quase impenetrável. Rompe os ventos e avança por entre paisagens de séculos – intactas, permanentes, esquecidas... F. não veio para a despedida...
No interior da carruagem prevalece o silêncio entre desconhecidos, lado a lado, violado apenas pelo som tumultuoso do movimento do comboio, que enche o vácuo entre nós... e os nossos ouvidos indiferentes. Respira-se um cruzamento dos odores de histórias passadas, guardadas em sigilo, e dos destinos recônditos, aguardados passivamente por cada um de nós. Em cada estação repetem-se os rituais: a tristeza de uma despedida, a alegria de um reencontro, uma partida em direcção à incerteza ou um regresso a casa há muito desejado. E depois, novamente, o silêncio. Silêncio carregado de saudade e de ansiedade... ou de indiferença.
Lá fora os raios de Sol quebram lentamente os céus e trespassam o nevoeiro agora débil, invadindo todo o espaço envolvente como uma teia de luz, de sublime textura branca, opaca e ofuscante. A poderosa máquina metálica continua imponente por entre estas terras sem dono… sem nome. Do solo virgem erguem-se, sólidas, as montanhas, habitadas por deuses antigos que descansam agora em segredo. Deuses hoje esquecidos, outrora elevados à magnificência pela excêntrica demência dos feiticeiros extintos. Revelam-se agora apenas no olhar inerte dos seus descendentes, que desconhecem em si o rasto da sua presença e os apagaram da sua memória. E esta janela, esta simples janela, é a barreira intransponível que me separa de todo esse esplendor. Impede-me de sentir, de ser parte desse mundo primordial, puro, absoluto, que apenas posso observar com estes meus olhos vazios, desprovidos do seu frémito original.
Olhos cansados, cedem por alguns instantes ao efémero sonho de nada que me corta a vigília... leva-me agora para além desta janela, numa flutuação confusa por entre imagens pouco nítidas, sem sentido. Onde estou?... Volto a acordar e olho mais uma vez pela janela. O comboio começa a parar. A estação final. Os últimos passageiros tomam os seus haveres e preparam-se para sair. Levanto-me.
Para onde vou, neste lugar desconhecido? O futuro recusa-se a desvendar os seus segredos neste último dia do meu passado. E recordo... recordo ainda o silêncio, as paisagens, o sonho... F. não veio para a despedida.
segunda-feira, janeiro 07, 2008
Uma relação esquizofrénica (3)
Tu nunca me ouves e eu nunca me lembro do que tu me dizes. E mesmo assim, sempre que nos chateamos é por causa do que dizemos um ao outro.
Uma relação esquizofrénica (2)
Agora quase nunca tenho vontade de estar contigo e tu quase nunca tens vontade de estar comigo. E quando queremos estar um com o outro é só para nos atacarmos, vingar ressentimentos.
Uma relação esquizofrénica
Temos uma relação esquizofrénica. Podia dar certo. Mas no nosso caso não funciona. É como se fossem quatro pessoas, mas os pares certos nunca se encontram.
A fase de Kafka
Numa conversa acerca de gostos literários referi que Kafka é um dos escritores de que mais gosto, ao que a outra pessoa retorquiu: “Kafka? Já passei essa fase!” Confesso que fiquei baralhado. Mas como é que, nos dias de hoje e no contexto social em que nos encontramos, Kafka pode ser uma fase que passa? Nunca como hoje a literatura de Kafka foi tão actual, pois nunca como hoje a sociedade esteve tão obcecada em adoptar os comportamentos absurdos que a sua literatura descreve. O absurdo que Kafka utilizou para fazer boa literatura tem vindo a transformar-se num absurdo real, tem vindo a tornar-se cada vez mais no rumo que a nossa sociedade teima em seguir como se fosse uma fatalidade. E só quando comecei a escrever este texto percebi como se passa a fase da literatura de Kafka para entrar numa outra fase: aquela em que a literatura de Kafka passa para o real e se mistura com o quotidiano pessoal e social. E isso significa que esquecemos a sua lição. A lição de Kafka consistiu em mostrar-nos aquilo que deveríamos evitar e nós, ao invés, fazemos disso o nosso modelo social. A fase de Kafka está longe de passar.
terça-feira, janeiro 01, 2008
Ausente
Estás online mas o teu estado diz "ausente"; e uma ausência é apenas a memória de uma presença.
segunda-feira, dezembro 24, 2007
Portugal em 2007
Balanço de final de ano:
O que se pode dizer de um país onde "obrar" é sinónimo de "cagar"?
O que se pode dizer de um país onde "obrar" é sinónimo de "cagar"?
sábado, dezembro 08, 2007
segunda-feira, dezembro 03, 2007
sexta-feira, novembro 30, 2007
Querido diário...
Dia 1:
Hoje sinto-me uma caderneta: só cromos à minha volta
Dia 2:
Hoje sinto-me uma merda: só moscas à minha volta
Hoje sinto-me uma caderneta: só cromos à minha volta
Dia 2:
Hoje sinto-me uma merda: só moscas à minha volta
quarta-feira, novembro 28, 2007
domingo, novembro 25, 2007
quinta-feira, novembro 22, 2007
Senhor professor...
...mentalize-se disto: a sua função já não é ensinar, mas sim contribuir para as estatísticas.
sábado, novembro 10, 2007
Filosofia barata (3)
Não sei que é o autor:
"Uns têm carências afectivas, outros têm falta de carências afectivas."
"Uns têm carências afectivas, outros têm falta de carências afectivas."
domingo, outubro 28, 2007
sexta-feira, outubro 05, 2007
quinta-feira, outubro 04, 2007
Violent Revolution
Society failed to tolerate me
And I have failed to tolerate society
"Violent Revolution"
Mille Petrozza, KREATOR
And I have failed to tolerate society
"Violent Revolution"
Mille Petrozza, KREATOR
quinta-feira, setembro 13, 2007
Filosofia barata 2 (homens e burros)
Há dois tipos de homem neste mundo: os que fazem o seu trajecto em cima de um burro e os que fazem esse trajecto debaixo dos primeiros.
No jogo e no amor
No jogo, nunca ousou arriscar o suficiente e, assim, nunca perdeu muito e em nenhuma vez ganhou alguma coisa; geralmente ficava de fora como um observador que desconheceu sempre a sua sorte.
Também no amor foi sempre demasiado prudente; era uma espécie de cabide, que acabava sempre por ficar a segurar nos casacos, à espera que o beijo acabasse.
Também no amor foi sempre demasiado prudente; era uma espécie de cabide, que acabava sempre por ficar a segurar nos casacos, à espera que o beijo acabasse.
segunda-feira, setembro 03, 2007
Tirado daqui
O argumentista lembra-me um rapaz que tenta seduzir uma rapariga. Telefona-lhe, convida-a para sair com ele, é muito tímido, vão ao cinema, depois vão tomar um copo, ele convida-a para ir a casa dele, quando chegam ele põe música, serve conhaque, diminui um pouco a luz. A rapariga sente-se bem, começa a deixar-se ir. O argumentista acaricia-a um pouco, desabotoa os primeiros botões da sua camisa... Nesse momento, o realizador chega, dá a mão à rapariga e leva-a para o quarto para terminar o trabalho.
Andrei Konchalovsky, realizador russo, no livro Les Leçons de Cinema, Festival de Cannes, Éditions du Panamá, 2007
Andrei Konchalovsky, realizador russo, no livro Les Leçons de Cinema, Festival de Cannes, Éditions du Panamá, 2007
Necessidades residuais 2
Ela volta de vez em quando, sempre que tem necessidades residuais de carácter afectivo. E eu cedo sempre e aceito ser um resíduo emocional.
Necessidades residuais
Hoje apresentei-me ao serviço para preencher “necessidades residuais”. Sinto-me um resíduo profissional.
sexta-feira, julho 27, 2007
KRAGLER: Anna! Anna! Que faço eu? Passo, em vertigem, por sobre um mar de cadáveres e não me afogo. Rodo a caminho do Sul em carros negros cheios de gado e fico incólume. Ardo numa fornalha de chamas e sou eu próprio a chama mais intensa. Alguém enlouquece sob o ardor do sol e não sou eu. Dois homens tombam num valado de água e eu continuo a dormir. Abato pretos. Como erva. Sou um fantasma.
"TAMBORES NA NOITE", Bertolt Brecht
"TAMBORES NA NOITE", Bertolt Brecht
terça-feira, julho 24, 2007
segunda-feira, julho 23, 2007
Urgências 2007 - O que é que tens de urgente para me dizer?

Um espectáculo aconselhado a toda a gente. Aproveitem, no Teatro Maria Matos até dia 29 deste mês.
Ver mais aqui.
sábado, julho 07, 2007
Plano de Acção para a Matemática
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terça-feira, junho 26, 2007
A angústia poiética
Sento-me. No local de sempre, à hora do costume. À espera. Enfrento a folha branca, à espera da Ideia. A primeira Ideia. A Ideia original, matéria de que germinará a nova obra. Essa obra que breve deverá preencher a folha ainda vazia.
Mas o tempo passa e ela tarda em aparecer. Impaciente, lanço o lápis ao papel. Vou tentando. Mas não. Ainda não chegou. Apago, risco… rasgo. Espero mais um pouco. Levanto-me, dou uma volta pelo quarto pequeno e volto a sentar-me, à espera. Inclino-me para trás na cadeira e fecho os olhos. (À procura?) Não. Também aí não a encontro. Volto a pegar no lápis (talvez já tenha chegado). E volto a apagar, a riscar… a rasgar. Não era ela ainda. (Quando chegará?) Novamente a espera, a impaciência, a ansiedade… o cansaço. O tempo passa. O silêncio ainda na folha vazia, que espera. Já se faz tarde… o cansaço…
E eis que, enfim, ela surge! A Ideia. É ela! (Como, donde apareceu?) Sem perder mais tempo, pouso os cotovelos sobre a mesa e estampo-a no papel. Já está! (Já não me escapa) Olho para ela. Examino-a, analiso-lhe as características. Calculo as suas possibilidades. Já é tarde. Estou já bastante cansado. Mas é preciso começar. É necessário dar-lhe vida. Desenvolver, refinar esta matéria em estado bruto. Transformá-la em obra feita, acabada. Faço-a crescer no papel, ocupar o espaço vazio. O cansaço… Trabalho mais um pouco. Apago e risco, mas já não rasgo… corrijo. Corrijo mais do que progrido. Sinto-me cada vez mais cansado. Tenho já alguma dificuldade em raciocinar com clareza. A estrutura, a forma – não consigo organizá-las mentalmente, nem no papel. Paro um pouco (talvez se repousar…). Recomeço. E apago outra vez. Não, é melhor não. Hoje não. O cansaço vence. Escusado insistir em fazer coisas que amanhã vou de certeza apagar.
Deito-me e durmo. Ocorrem-me, ainda antes de adormecer, possíveis soluções (como sempre nesta altura). Mas estou demasiado cansado para voltar a trabalhar agora.
Acordo no novo dia. Lanço-me ao papel. Lá está ela. A Ideia. À minha espera. Começo por tentar as soluções que me ocorreram no leito antes de adormecer. Mas já não as recordo com muita exactidão. Ficou apenas uma lembrança incompleta. Insisto tentativa após de tentativa. Não, não vale a pena. É inútil. Nada serve. Terei de procurar novas soluções. Mas não agora. Não há tempo. Tenho de sair.
Regresso à noite. Ao mesmo local, à mesma hora. Pego na Ideia. Avanço mais um pouco. Não sem correcções. Vou detectando alguns erros. Não, hoje não é um bom dia para fazê-lo. Não consigo concentrar-me (há outras preocupações). Abro a gaveta e guardo-a. Talvez seja melhor adiar. Deixar amadurecê-la durante algum tempo. E ela lá fica esquecida, na gaveta – dias, semanas, meses…?
E, um dia, ao abrir a gaveta… ela volta aparecer-me à frente. Deixo-a em cima da mesa desta vez, para lhe pegar em breve.
Finalmente, sento-me para voltar a trabalhá-la. Desta vez, determinado a obter resultados definitivos. Por isso, avanço cautelosamente, metodicamente. A busca da forma perfeita não permite concessões. É necessário pensar tudo, prever tudo, ter completa consciência de todo e qualquer pormenor. Torna-se fundamental uma autocrítica constante. Cada elemento tem que ser questionado até que seja inequívoca a sua função, o seu significado dentro da obra – estar em perfeita coerência com os outros elementos e com o todo. Nada pode faltar. Nada pode estar a mais. A busca da forma perfeita. Sem fragilidades. Inatacável. (Necessidade ou obsessão?) Um caminho de dúvidas, incertezas, indecisões… à procura do equilíbrio. Por isso, volto à mesma prática. Escrevo e apago para alcançar a solução ideal, única, exacta. Construo e destruo, num conflito constante com o material, com a técnica, com as possibilidades… comigo mesmo. Questionar tudo, hesitar a cada passo. Examinar de perto e à distância. Detectar o erro e corrigir. Soluções provisórias que passam a soluções definitivas e, de definitivas, novamente a provisórias. Cada novo avanço gera também um recuo. Para cada nova linha, um risco a anulá-la. A borracha tão influente como o lápis. Nada está bem. Nada serve. E agora?
Paro por um momento. Que tenho até aqui? Fiz, desfiz, refiz e voltei a desfazer. Na folha rasurada, suja, resta apenas a Ideia (a primeira) ainda intocada.
Volto a analisá-la. (Medito) Talvez recomeçar todo o processo. Mas primeiro, esvaziar, limpar todas as reminiscências das anteriores tentativas. Não voltar aos mesmos erros. Por isso, é necessário uma análise mais atenta. Analiso-a e… pela primeira vez, desagrada-me. Não tem a consistência que julguei encontrar nela no início. Tento alterá-la (salvá-la). Mas não. É inútil. Não vale a pena. Já não me identifico com ela. Passou o seu tempo.
Desta vez não a levo à gaveta. Rasgo a folha.
E fico sentado, à espera… da Ideia.
Mas o tempo passa e ela tarda em aparecer. Impaciente, lanço o lápis ao papel. Vou tentando. Mas não. Ainda não chegou. Apago, risco… rasgo. Espero mais um pouco. Levanto-me, dou uma volta pelo quarto pequeno e volto a sentar-me, à espera. Inclino-me para trás na cadeira e fecho os olhos. (À procura?) Não. Também aí não a encontro. Volto a pegar no lápis (talvez já tenha chegado). E volto a apagar, a riscar… a rasgar. Não era ela ainda. (Quando chegará?) Novamente a espera, a impaciência, a ansiedade… o cansaço. O tempo passa. O silêncio ainda na folha vazia, que espera. Já se faz tarde… o cansaço…
E eis que, enfim, ela surge! A Ideia. É ela! (Como, donde apareceu?) Sem perder mais tempo, pouso os cotovelos sobre a mesa e estampo-a no papel. Já está! (Já não me escapa) Olho para ela. Examino-a, analiso-lhe as características. Calculo as suas possibilidades. Já é tarde. Estou já bastante cansado. Mas é preciso começar. É necessário dar-lhe vida. Desenvolver, refinar esta matéria em estado bruto. Transformá-la em obra feita, acabada. Faço-a crescer no papel, ocupar o espaço vazio. O cansaço… Trabalho mais um pouco. Apago e risco, mas já não rasgo… corrijo. Corrijo mais do que progrido. Sinto-me cada vez mais cansado. Tenho já alguma dificuldade em raciocinar com clareza. A estrutura, a forma – não consigo organizá-las mentalmente, nem no papel. Paro um pouco (talvez se repousar…). Recomeço. E apago outra vez. Não, é melhor não. Hoje não. O cansaço vence. Escusado insistir em fazer coisas que amanhã vou de certeza apagar.
Deito-me e durmo. Ocorrem-me, ainda antes de adormecer, possíveis soluções (como sempre nesta altura). Mas estou demasiado cansado para voltar a trabalhar agora.
Acordo no novo dia. Lanço-me ao papel. Lá está ela. A Ideia. À minha espera. Começo por tentar as soluções que me ocorreram no leito antes de adormecer. Mas já não as recordo com muita exactidão. Ficou apenas uma lembrança incompleta. Insisto tentativa após de tentativa. Não, não vale a pena. É inútil. Nada serve. Terei de procurar novas soluções. Mas não agora. Não há tempo. Tenho de sair.
Regresso à noite. Ao mesmo local, à mesma hora. Pego na Ideia. Avanço mais um pouco. Não sem correcções. Vou detectando alguns erros. Não, hoje não é um bom dia para fazê-lo. Não consigo concentrar-me (há outras preocupações). Abro a gaveta e guardo-a. Talvez seja melhor adiar. Deixar amadurecê-la durante algum tempo. E ela lá fica esquecida, na gaveta – dias, semanas, meses…?
E, um dia, ao abrir a gaveta… ela volta aparecer-me à frente. Deixo-a em cima da mesa desta vez, para lhe pegar em breve.
Finalmente, sento-me para voltar a trabalhá-la. Desta vez, determinado a obter resultados definitivos. Por isso, avanço cautelosamente, metodicamente. A busca da forma perfeita não permite concessões. É necessário pensar tudo, prever tudo, ter completa consciência de todo e qualquer pormenor. Torna-se fundamental uma autocrítica constante. Cada elemento tem que ser questionado até que seja inequívoca a sua função, o seu significado dentro da obra – estar em perfeita coerência com os outros elementos e com o todo. Nada pode faltar. Nada pode estar a mais. A busca da forma perfeita. Sem fragilidades. Inatacável. (Necessidade ou obsessão?) Um caminho de dúvidas, incertezas, indecisões… à procura do equilíbrio. Por isso, volto à mesma prática. Escrevo e apago para alcançar a solução ideal, única, exacta. Construo e destruo, num conflito constante com o material, com a técnica, com as possibilidades… comigo mesmo. Questionar tudo, hesitar a cada passo. Examinar de perto e à distância. Detectar o erro e corrigir. Soluções provisórias que passam a soluções definitivas e, de definitivas, novamente a provisórias. Cada novo avanço gera também um recuo. Para cada nova linha, um risco a anulá-la. A borracha tão influente como o lápis. Nada está bem. Nada serve. E agora?
Paro por um momento. Que tenho até aqui? Fiz, desfiz, refiz e voltei a desfazer. Na folha rasurada, suja, resta apenas a Ideia (a primeira) ainda intocada.
Volto a analisá-la. (Medito) Talvez recomeçar todo o processo. Mas primeiro, esvaziar, limpar todas as reminiscências das anteriores tentativas. Não voltar aos mesmos erros. Por isso, é necessário uma análise mais atenta. Analiso-a e… pela primeira vez, desagrada-me. Não tem a consistência que julguei encontrar nela no início. Tento alterá-la (salvá-la). Mas não. É inútil. Não vale a pena. Já não me identifico com ela. Passou o seu tempo.
Desta vez não a levo à gaveta. Rasgo a folha.
E fico sentado, à espera… da Ideia.
As preocupações de R
Dia após dia, sempre à mesma hora, R percorre o mesmo caminho. Não se trata de uma rotina pessoal, ou de um hábito adquirido ou de qualquer espécie de ritual. Fá-lo na esperança de encontrar algo que perdeu. Lentamente, passo a passo, de olhos para o chão, totalmente concentrado na sua tarefa, examina atentamente cada centímetro desse caminho. Sabe que foi algures nesse caminho que perdeu, mas não se apercebeu exactamente onde nem quando. Poderia desistir e substituir facilmente aquilo que perdeu. Essa seria, aliás, uma solução mais confortável para si. Mas não lhe agrada pensar em desistir e dar como irremediavelmente perdido algo que quer recuperar. Por vezes, ocorre-lhe que não é o único a passar naquele caminho e que aquilo que perdeu pode já ter sido encontrado e levado por outra pessoa e, assim, não se encontrar já nesse caminho. A confirmar-se esta hipótese, a sua busca seria uma perda de tempo completamente inútil. Mas, por outro lado, não acredita que aquilo que perdeu, algo tão pessoal, tão “seu”, possa ter qualquer utilidade ou valor para outra pessoa. E continua, à procura, na esperança de que ainda lá esteja, algures nesse caminho. Há ocasiões em que, cansado, R pára durante alguns instantes, com a cabeça erguida, os olhos fechados e os raios de sol que lhe aquecem o rosto. É nesses momentos que se sente tentado a pensar que provavelmente já nem sabe sequer o que é que perdeu. Além disso, é também nesses momentos que deixa de ter certeza de que perdeu realmente alguma coisa. Mas não o abandona a forte sensação de que perdeu alguma coisa algures naquele caminho; o que faz com que insista na sua procura. E todos os dias, àquela hora, R volta a percorrer o mesmo caminho, lentamente, passo a passo, o olhar pregado no chão, alheado do que se passa à sua volta, concentrado apenas em examinar cada centímetro do caminho.
domingo, abril 29, 2007
Espectáculo Desmontável - agenda
- 20 de Abril (6º feira) às 21h43m
Celorico de Basto - Auditório dos Bombeiros Voluntários
- 27 de Abril (6º feira) às 21h43m
Mondim de Basto - Auditório da Casa da Cultura
- 30 de Abril (2º feira) às 21h43m
Cabeceiras de Basto - Auditório Municipal Ilídio dos Santos
Entrada livre
Celorico de Basto - Auditório dos Bombeiros Voluntários
- 27 de Abril (6º feira) às 21h43m
Mondim de Basto - Auditório da Casa da Cultura
- 30 de Abril (2º feira) às 21h43m
Cabeceiras de Basto - Auditório Municipal Ilídio dos Santos
Entrada livre
Espectáculo Desmontável
Clube de Teatro e Malabarismo
da Escola E. B. 2,3/S de Celorico de Basto
apresenta
ESPECTÁCULO DESMONTÁVEL
“Espectáculo Desmontável” é a parte visível da aprendizagem de aspectos técnicos e teóricos relacionados com o teatro e o malabarismo, funcionando como exercício final de aplicação prática dessa aprendizagem. “Espectáculo Desmontável” porque está dividido em partes diferentes, sem relação directa umas com as outras. Partes diferentes que se sucedem e que abrangem vários géneros e estilos teatrais. “Espectáculo Desmontável”, porque qualquer das partes pode ser retirada sem prejuízo do todo; qualquer das partes pode ser utilizada em qualquer outro contexto, em qualquer outra situação, dentro ou fora do palco.
O espectáculo começa com uma exibição de malabarismo, à qual se segue um excerto do “Auto da Barca do Inferno”, um clássico de Gil Vicente. Seguem-se 5 peças curtas extraídas do projecto de teatro “Urgências – o que é que tens de urgente para me dizer?”, que foi apresentado no Teatro Maria Matos, em 2004, 2006, esperando-se nova edição para 2007. Estas peças criam diferentes situações, exploram diferentes sentimentos e ambientes possíveis dentro da dualidade “ele/ela”. No fim, são representados dois excertos da peça “A Cantora Careca” de Eugène Ionesco, o autor mais notável do género que se denominou “Teatro do Absurdo”.
Não se espere encontrar neste espectáculo uma “mensagem”, “conteúdo”, ou aquilo que habitualmente se espera ver numa peça de teatro convencional. Com este espectáculo pretende-se, simplesmente, pôr em prática uma aprendizagem técnica e teórica que foi desenvolvida nos meses que precederam a sua apresentação, e dar aos alunos envolvidos no Clube a possibilidade de serem parte activa numa experiência artística, pedagógica e didáctica.
Programa:
1. Actuação de Malabarismo
2. Auto da Barca do Inferno (excertos “Joane O Parvo” e “Brízida Vaz”) de Gil Vicente
[Daniela Pinto; Márcia Lopes; Sofia Portilho; Ângela Pereira]
3. Urgências – o que é que tens de urgente para me dizer?
3.1. Última chamada de Luís Filipe Borges
[Márcio Gonçalves; Tânia Coelho]
3.2. Genebra de Pedro Mexia
[Moisés Correia; Inês João]
3.3. Mulher sem memória de Patrícia Portela
[Carla Oliveira; Ricardo Carvalho]
3.4. Eu e tu não somos nós de Luís Filipe Borges
[Ana Helena Lopes; David Magalhães]
3.5. Coro dos amantes a caminho do hospital de Tiago Rodrigues
[Pedro Silva; Ana Catarina Santos]
4. A Cantora Careca (excertos “Bobby Watson” e “Que curioso”) de Eugène Ionesco
[Ana Abreu; Ana Zimmerman; Eva Carvalho; Ricardo Carvalho; Fernanda Pinto]
domingo, abril 22, 2007
sábado, fevereiro 24, 2007
terça-feira, janeiro 16, 2007
domingo, janeiro 07, 2007
segunda-feira, novembro 27, 2006
Portugal
"Hospitais: para um Manual de Sobrevivência para doentes e acompanhantes."
Não deixem de ler o texto de António Pinho Vargas.
Vale a pena.
Não deixem de ler o texto de António Pinho Vargas.
Vale a pena.
sábado, novembro 25, 2006
terça-feira, novembro 21, 2006
O compositor Toy
O excelente texto que se segue foi escrito pelo compositor Eurico Carrapatoso, um homem que se revolta contra um tipo de mentalidade que tem vindo corroer a actividade musical séria neste país, a respeito de uma entrevista do "compositor" Toy à revista da Sociedade Portuguesa de Autores.
Citando Toy "Nunca tive outra opção que não fosse a música: tirei um curso geral secundário de Administração e Comércio, ligado à contabilidade, que ainda hoje não me serve para nada porque a única matemática com que me entendo é a matemática da música: o três por quatro, o quatro por quatro, o três por seis". Neste momento, na secção "três por seis", boutade que tem tanto de notável quanto de alvar, eu tive um sentimento misto de comiseração cristã e de gozo mafarrico, debruado em citações de Groucho Marx do tipo "se tivesse um cavalo, chicotear-te-ia!".
Mas a culpa não é do Toy. De facto, a revista da SPA, a putativa revista dos autores portugueses, é que ultrapassou todas as marcas quando lhe deu, na sua última edição, um espaço de 3 páginas inteiras, numa entrevista de fundo onde triunfa de novo o prosaico, a anedota, e o boçal.
E é nestas ocasiões que reflicto sobre alguns assuntos, tais como:
1. Abandonar pura e simplesmente a instituição que me representa como autor e que, simultaneamente, me emporcalha.
2. É também nestas ocasiões que, finalmente, consigo perceber melhor o carácter profundamente antidemocrático das afirmações de Fernando Pessoa quando se refere ao povo numa prosa contundente.
3. De quantos anos vai precisar ainda a SPA para realizar que, chamar compositor ao Toy, é o mesmo que chamar neurocirurgião ao bruxo de Nozelos ou ao curandeiro de Arruda dos Vinhos? Que uma coisa, é o conhecimento paciente e extremamente exigente, por via erudita, de matérias da mais alta transcendência, quer na sua forma, quer no seu conteúdo, conhecimento esse sustentado em dezenas de anos de estudos, de subtilezas universitárias, de pesquisas, de leituras, de contactos, de discussões, de seminários, de conferências, de descobertas, de progressos pessoais tantas vezes projectados num alcance benemérito do qual a sociedade é a primeira beneficiária. E que outra coisa, bem diferente, é o conhecimento castiço herdado por via popular de mezinhas e outras intuições, que, merecendo-nos uma simpatia condescendente, tem o valor que tem e apenas esse. E isto não é pedantismo. Poupem-me. Citando o outro, "É a Cultura, estúpido!"
Eurico Carrapatoso
Citando Toy "Nunca tive outra opção que não fosse a música: tirei um curso geral secundário de Administração e Comércio, ligado à contabilidade, que ainda hoje não me serve para nada porque a única matemática com que me entendo é a matemática da música: o três por quatro, o quatro por quatro, o três por seis". Neste momento, na secção "três por seis", boutade que tem tanto de notável quanto de alvar, eu tive um sentimento misto de comiseração cristã e de gozo mafarrico, debruado em citações de Groucho Marx do tipo "se tivesse um cavalo, chicotear-te-ia!".
Mas a culpa não é do Toy. De facto, a revista da SPA, a putativa revista dos autores portugueses, é que ultrapassou todas as marcas quando lhe deu, na sua última edição, um espaço de 3 páginas inteiras, numa entrevista de fundo onde triunfa de novo o prosaico, a anedota, e o boçal.
E é nestas ocasiões que reflicto sobre alguns assuntos, tais como:
1. Abandonar pura e simplesmente a instituição que me representa como autor e que, simultaneamente, me emporcalha.
2. É também nestas ocasiões que, finalmente, consigo perceber melhor o carácter profundamente antidemocrático das afirmações de Fernando Pessoa quando se refere ao povo numa prosa contundente.
3. De quantos anos vai precisar ainda a SPA para realizar que, chamar compositor ao Toy, é o mesmo que chamar neurocirurgião ao bruxo de Nozelos ou ao curandeiro de Arruda dos Vinhos? Que uma coisa, é o conhecimento paciente e extremamente exigente, por via erudita, de matérias da mais alta transcendência, quer na sua forma, quer no seu conteúdo, conhecimento esse sustentado em dezenas de anos de estudos, de subtilezas universitárias, de pesquisas, de leituras, de contactos, de discussões, de seminários, de conferências, de descobertas, de progressos pessoais tantas vezes projectados num alcance benemérito do qual a sociedade é a primeira beneficiária. E que outra coisa, bem diferente, é o conhecimento castiço herdado por via popular de mezinhas e outras intuições, que, merecendo-nos uma simpatia condescendente, tem o valor que tem e apenas esse. E isto não é pedantismo. Poupem-me. Citando o outro, "É a Cultura, estúpido!"
Eurico Carrapatoso
domingo, novembro 12, 2006
sábado, novembro 11, 2006
George Antheil - Ballet Mécanique

Ballet Mécanique é talvez a obra mais notável do compositor americano George Antheil (1900-1959) e pode ser encontrada neste CD que adquiri recentemente. Para saber mais sobre o compositor, clicar aqui.
sábado, outubro 28, 2006
Kafka
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